Tragedia em Niteroi
Fátima chegou à favela por volta das três da tarde. Mas precisávamos cumprir uma outra tarefa com ela antes do jornal. E teria que ser rápido. A ideia era fazer uma reportagem um pouco diferente da que estamos acostumados a ver. Fátima daria um testemunho pessoal sobre aquele cenário devastador e entrevistaria algumas pessoas que poderiam ajudar a mostrar a dimensão daquele desastre.
O meu rádio tocou de manhã. Do outro lado da linha, o editor-chefe do Jornal Nacional, William Bonner, me convocava para um dia diferente de trabalho. Eu não precisaria ir para a redação no Jardim Botânico, no Rio. Na tarde daquela quinta-feira, 8 de abril, meu destino era o Morro do Bumba, onde aconteceu a maior tragédia dos deslizamentos de Niterói, cidade onde moro desde que nasci. Como morador, eu poderia ser útil para o jornal. Minha missão era auxiliar Fátima Bernardes, que deixaria a bancada do JN para apresentar o jornal ao vivo do local da tragédia.
Eu e o produtor Tyndaro Menezes ficávamos circulando pela multidão em busca de algumas histórias que pudessem enriquecer a reportagem da Fátima e do repórter cinematográfico Marco Aurélio. O restante da gravação foi surgindo naturalmente. Encontramos uma tenda com famílias a espera de notícias, uma igreja acolhendo desabrigados e histórias tristes que apareciam em qualquer lugar para onde apontávamos o microfone.
O que chamou logo a atenção da equipe foi o vai e vem de gente trazendo roupa, comida e colchões. Na rua que fica em frente à montanha que deslizou, um cartaz colado num para-brisa improvisado dizia: “Van da Solidariedade”. Dentro dela, estava um grupo que veio do Morro do Castro, uma outra comunidade pobre de Niterói. Gravamos com aquelas pessoas que não tinham muito para doar, mas faziam questão de estar ali.








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